Terminei o workshop há pouco, com muitas idéias ao meu redor. Como sempre dou início aos meus trabalhos de dança perguntando o histórico de quem participa, é algo que me responde cada vez mais minhas questões, a respeito da Dança e das Mulheres.
Eu venho observado um número considerável delas, assim como eu... que...seja nas aulas de dança, nas ruas, no ambiente de trabalho, muitos lugares enfim, observo uma certa necessidade em procurar movimentar o corpo de alguma forma que as alivie de uma sensação de vazio, como um vaso que necessite por um pouco mais de água para estar completo.
Acho que isso não acontece apenas às mulheres, mas sinto que a inquietação quanto à realidade possui mais seguidoras do sexo feminino, se é que podemos dividir gêneros neste momento. Não gosto de falar daquilo que qualifica um ser mulher, eu não acredito nisso, eu prefiro pensar que feminilidade e masculinidade estão além da divisão biológica, como formas de subjetivação presentes dentro do homem e da mulher, ou seja, um homem pode ter feminilidade e vice e versa...
Mas, retornando à inquietação e à necessidade de dançar, revejo cada vez mais as minhas pesquisas a respeito do corpo e da mulher... essa necessidade de responder perguntas através do corpo, de buscar alguma coisa que não se sabe direito o que, ainda mais em uma sociedade tão desprovida de significados simbólicos e alheia ao mundo do sensível...que transforma toda e qualquer arte em produto, formatado, codificado com preço, desconto e liquidação...
O que fazer com a palavra Sagrado, Dança Sagrada, quando se vende um número determinado de passos e combinações por mês? E quem compra aprende a repetir os passos, e se somar o maior número de passos bem executados "aprende a dançar"?
Eu sei, a Dança do Ventre é um grande exemplo de algo que carrega resquícios sagrados, e mesmo sendo jogada nos palcos como mais um pacote de movimentos que vêm somar com o culto da performance, da execução, de tudo aquilo que é externo, eu ainda a continuo chamando, Dança Sagrada.
O palco e a academia acabam sendo o portão de entrada para todo um Universo de descobertas a respeito do Sagrado dentro corpo. É através da busca pela técnica perfeita que a mulher contemporânea se descobre enquanto indivíduo. As aulas são encontros com a história de outras mulheres, experiências multiplicadas que ligam o presente à muitas gerações do passado.
A tantos séculos, desde o tempo em que sacerdotisas dançavam nas cavernas do deserto da Arábia,mutiladas pelo exército islâmico, depois cortesãs reais, ciganas, bruxas e parteiras. Depois odaliscas profanas, e agora, estrelas de shows de auditório.
A Dança do Ventre é um fenômeno que sobrevive aos séculos, do sagrado ao profano, as mulheres a buscam, mesmo sem saber um décimo de todos os mistérios.
E se isso acontece é porque ela responde e cura muitas feridas femininas.
Isis Zahara - é antropóloga e mestre em Danças Etnicas pela Unicamp, participa da equipe de produção, gravação e edição do programa Café Filosófico da TV Cultura. Pesquisa a Dança do Ventre desde 1993
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